
No dia 6 de Abril, de manhã, eu pedi um motim governamental. O abismo entre o primeiro-ministro e a realidade era enorme, e alguém tinha de fazer alguma coisa. À tarde, os deuses fizeram-me a vontade, e o motim apareceu mesmo: Teixeira dos Santos roeu a corda da ilusão . Num acto de coragem (que chegou com um ano de atraso), Teixeira dos Santos encostou Sócrates à parede. Este motim ainda não é a redenção de Teixeira dos Santos, mas já é um começo. E, como se sabe, Teixeira dos Santos está a pagar bem caro este início de redenção: foi esquecido pelo PS (um problema do PS), e ficou de fora das negociações com a troika (um problema que o PS causou ao país).
Ora, este assunto não tem recebido a atenção que merece. Pelas mãos de Sócrates, Portugal chegou a este ponto de loucura: foi preciso um motim para que o primeiro-ministro acordasse para a realidade; foi preciso um motim do ministro das finanças para que Sócrates terminasse com o seu teatrinho. Isto é - com todas as letras - uma loucura. Isto revela um primeiro-ministro que só consegue pensar nele próprio. E, confesso, durante estas semanas, não percebi uma coisa: por que razão os jornalistas não acamparam à porta de Teixeira dos Santos? Este caso é profundamente anormal e perturbador, mas as redacções engoliram esta espinha. Num país com uma imprensa agressiva, a casa de Teixeira dos Santos teria sido vandalizada por repórteres e câmaras de TV. Em "Lesboa", a malta acha tudo isto muito normal, tal como é normal termos um génio das contas, Silva Pereira, a negociar com a troika.
Na relação entre os média e o PS existem cumplicidades, silêncios e inércias que não se compreendem. Se esta comédia tivesse como actores um primeiro-ministro e um ministro das finanças de uma AD, meu deus, dois Carmos e duas Trindades estariam no chão, e uma terceira vaga de indignação estaria a caminho.
Henrique Raposo em http://www.expresso.pt/