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20.2.10

RAINER MARIA RILKE

Aus den Sonetten an Orpheus (1923)

"Wir sind die Treibenden.
Aber der Schritt der Zeit,
nehmt ihn als Kleinigkeit
im immer Bleibenden.

Alles das Eilende
wir schon vorüber sein;
denn das Verweilende
erst weiht uns ein.

Knaben, o werft den Mut
nicht in die Schnelligkeit,
nicht in den Flugversuch.

Alles ist ausgeruht:
Dunkel und Heilligkeit,
Blume und Buch."

10.2.10

«ESTÃO PODRES AS PALAVRAS...»

Estão podres as palavras- de passarem
por sórdidas mentiras de canalhas
que as usam ao revés como o carácter deles.
E podres de sonâmbolos os povos
ante a maldade à solta de que vivem
a paz quotidiana da injustiça.
Usá-las puras- como serão puras
se logo a infâmia as cobre de seu cuspo?
Estão podres: e com elas apodrece o mundo
e se dissolve em lama a criação do homem
que só persiste em todos livremente
onde as palavras fiquem como torres
erguidas sexo de homem entre o céu e a terra.

Jorge de Sena

4.1.10

HOPPER-(Morning sun)

Tapas os caminhos que vão dar a casa
Cobres os vidros das janelas
Recolhes os cães para a cozinha
Soltas os lobos que saltam as cancelas

Pões guardas atentas espiando o jardim
Madrastas de histórias inventadas
Anjos do mal voando sem ter fim
Destróis todas as pistas que nos salvam

Depois secas a água e deitas fora o pão
Tiras a esperança
Rejeitas a matriz
E quando só já retam os sinais
Convocas devagar os vendavais

Se tanto dói que as coisas passem
É porque cada instante em mim foi vivo
Na busca de um bem definitivo
Em que as coisas de amor se eternizassem

poema de: Sophia de Mello Breyner Andressen

26.12.09

GESANG ZUR NACHT

Tiefe Ruh--o tiefe Ruh!
Keine fromme Glocke läutet,
Süsse Schmerzensmutter du--
Deinen Frieden todgeweitet.

Schliess mit deinen kühlen, guten
Händen alle Wunden zu--
Dass nach innen sie verbluten-
Süsse Scherzensmutter- du!

Gerog Trakel

1.11.09

POESIA DE ANTERO DE QUENTAL PARA O DIA 1 DE NOVEMBRO

" Os que amei, onde estão? idos, dispersos,
Arrastados no giro dos tufões,
Levados, como em sonho, entre visões,
Na fuga, no ruir dos universos...

E eu mesmo, com os pés também imersos
Na corrente e à mercê dos turbilhões,
Só vejo espuma lívida, em cachões,
E entre ela, aqui e ali, vultos submersos...

Mas se paro um momento, se consigo
Fechar os olhos, sinto-os a meu lado
De novo, esses que amei: vivem comigo,

Vejo-os, ouço-os e ouvem-me também,
Juntos no antigo amor, no amor sagrado,
Na comunhão ideal do eterno Bem."

Antero de Quental, in: Com os mortos

5.8.09

MAR SONORO

Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim,
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho,
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim.

Sophia de Mello Breyner Andresen

28.7.09

CATILINA



Eu sou o solitário e nunca minto.
Rasguei toda a vaidade tira a tira
E caminho sem medo e sem mentira
À luz crepuscular do meu instinto.

De tudo desligado, livre sinto
Cada coisa vibrar como uma lira,
Eu- coisa sem nome em que respira
Toda a inquietação de um deus extinto.

Sou a seta lançada em pleno espaço
E tenho de cumprir o meu impulso,
Sou aquele que venho e logo passo.

E o coração batendo no meu pulso
despedaçou a forma do meu braço
Pr´além do nó de angústia mais convulso.

Sophia de Mello Breyner Andresen; in: Cem poemas de Sophia

19.7.09

O BANDARRA- DE FERNANDO PESSOA

Sonhava, anónimo e disperso,
O império por Deus mesmo visto,
Confuso como o Universo
E plebeu como Jesus Cristo.

Não foi nem santo nem herói,
Mas Deus sagrou com Seu sinal
Este, cujo coração foi
Não português mas Portugal.

in: "Mensagem"de Fernado Pessoa

6.7.09

FERNANDO PESSOA- POESIAS INÉDITAS

Como nuvens pelo céu
Passam os sonhos por mim.
Nenhum dos sonhos é meu
Embora eu os sonhe assim.

São coisas no alto que são
Enquanto a vista as conhece,
Depois são sombras que vão
Pelo campo que arrefece.

Símbolos? Sonhos? Quem torna
Meu coração ao que foi?
Que dor de mim me transtorma?
Que coisa inútil me dói?


28.6.09

FÜR INGE SCHMIDT- GUTE BESSERUNG



TROST


Tröste dich, die Stunden eilen,
Und was all dich drücken mag,
Auch das schlimmste kann nicht weilen,
Und es kommt ein andrer Tag.

In dem ew´gen Kommen, Schwinden,
Wie der Schmerz liegt auch das Glück,
Und auch heitre Bilder finden
Ihren Weg zurück.

Harre, hoffe. Nicht vergebens
Zählest du der Stunden Schlag:
Wechsel ist das Los des Lebens,
Und- es kommt ein andrer Tag.

Theodor Fontane

24.6.09

HOMENAGEM AO S.JOÃO

QUADRAS AO GOSTO POPULAR

Rosmaninho que me deram,
Rosmaninho que darei,
Todo o mal que me fizeram
Será o bem que eu farei.

Tenho um relógio parado
Por onde sempre me guio.
O relógio é emprestado
E tem as horas a fio.

Em vez de saia de chita
Tens uma saia melhor.
De qualquer modo és bonita,
E o bonito é o pior.

Fernando Pessoa

17.6.09

POESIA DE ÁLVARO DE CAMPOS

Não: devagar.
Devagar, porque não sei
Onde quero ir.
Há entre mim e os meus passos
Uma divergência instintiva.
Há entre quem sou e estou
Uma diferença no verbo
Que corresponde à realidade.

Devagar...
Sim, devagar...
Quero pensar no que quer dizer
Este devagar...
Talvez o mundo exterior tenha pressa demais.
Talvez a alma vulgar queira chegar mais cedo.
Talvez a impressão dos momentos seja muito próxima...

Talvez isso tudo...
Mas o que me preocupa é esta palavra devagar...
O que é que tem que ser devagar?
Se calhar é o Universo...
A verdade manda Deus que se diga.
Mas ouviu alguém isso a Deus?

ÁLVARO DE CAMPOS

8.5.09

DATA ( à maneira d" Eustache Deschamps)

Tempo de solidão e de incerteza
Tempo de medo e tempo de traição
Tempo de injustiça e de vileza
Tempo de negação

Tempo de covardia e tempo de ira
Tempo de mascarada e de mentira
Tempo que mata quem o denuncia
Tempo de escravidão

Tempo de coniventes sem cadastro
Tempo de silêncio e de mordaça
Tempo onde o sangue não tem rasto
Tempo de ameaça

Sophia de Mello Breyner Andresen

7.5.09

PRANTO PELO DIA DE HOJE

Nunca choraremos bastante quando vemos
O gesto criador ser impedido
Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruido
Por troças por insídias por venenos
E por outras maneiras que sabemos
Tão sábias tão subtis e tão peritas
Que nem podem sequer ser bem descritas

Sophia de Mello Breyner Andresen

3.5.09

EPÍGRAFE PARA A ARTE DE FURTAR

Roubam-me Deus,
outros o Diabo
-quem cantarei?

roubam-me a Pátria;
e a Humanidade
outros ma roubam
-quem cantarei?

sempre há quem roube
quem eu deseje;
e de mim mesmo
todos me roubam
-quem cantarei?

roubam-me a voz
quando me calo,
ou o silêncio
mesmo se falo
-aqui del-rei!

Jorge de Sena
1952

28.4.09

O GUARDADOR DE REBANHOS XVI

Quem me dera que a minha vida fosse um carro de bois
Que vem a chiar, manhãzinha cedo, pela estrada,
E que para de onde veio volta depois
Quase à noitinha pela mesma estrada.

Eu não tinha que ter esperanças_ tinha só que ter rodas...
A minha velhice não tinha rugas nem cabelo branco...
Quando eu já não servia, tiravam-me as rodas
E eu ficava virado e partido no fundo de um barranco.

Alberto Caiero

15.4.09

ALBERTO CAEIRO

As bolas de sabão que esta criança
Se entretém a largar de uma palhinha
São translucidamente uma filosofia toda.
Claras, inúteis e passageiras como a Natureza,
Amigas dos olhos como as coisas,
São aquilo que são
Com uma precisão redondinha e aérea,
E ninguém, nem mesmo a criança que as deixa,
Pretende que elas são mais do que parecem ser.

Algumas mal se vêem no ar lúcido.
São como a brisa que passa e mal toca nas flores
E que só sabemos que passa
Porque qualquer coisa se aligeira em nós
E aceita tudo mais nitidamente.

Alberto Caeiro

14.4.09

O GUARDADOR DE REBANHOS X

«Olá, guardador de rebanhos,
Aí à beira da estrada,
Que te diz o vento que passa?»

«Que é vento, e que passa,
E que já passou antes,
E que passará depois.
E a ti o que te diz?»

«Muita coisa mais do que isso.
Fala-me de muitas outra coisas.
De memórias e de saudades
E de coisas que nunca foram.»

«Nunca ouviste passar o vento.
O vento só fala do vento.
O que ouviste foi mentira,
E a mentira está em ti.»
(...)´
Alberto Caeiro

13.4.09

DIE VERFLUCHTEN

Es dämmert. Zum Brunnen gehn die alten Fraun.
Im Dunkel der Kastanien lacht ein Rot.
Aus einem Laden rinnt ein Duft von Brot
Und Sonnenblumen sinken übern Zaun.

Am Fluss die schenke tönt noch lau und leis.
Guitarre summt; ein Klimperklang von Geld.
Ein Heiligenschein auf jene Kleine fällt,
Die vor der Glastür wartet sanft und weiss.

O! blauer Glanz, den sie in Scheiben weckt,
Umrahmt von Dornen, schwarz und starrverzückt.
Ein krummer Schreiber lächelt wie verrückt
Ins Wasser, das ein wilder Aufruhr schreckt.

Georg Trakl